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Ainda Resta uma Esperança

Olá, Pessoal! Hoje o post é sobre um dos meus livros preferidos do Johannes Mario Simmel, um autor austríaco que fez muito sucesso no Brasil na década de 80 e na minha listinha de livros lidos. 

Escrito em 1950, Ainda Resta uma Esperança, de J.M. Simmel, é um livro belo. Além de ter transformado personagens em “amigos”, trouxe-me boas reflexões e risadas. Já o li 3 vezes, sendo a última há alguns dias atrás (ah, o cheiro de livro velho!).

Conheci Simmel quando adolescente, fuçando a Biblioteca Pública que frequentava. O primeiro livro que li dele foi “Deus protege os que se amam“, em janeiro de 2004. Gostei tanto da leitura que só naquele ano li mais 4 dele. Todos pra lá de 400 páginas!

Como se vê, seus romances são bem volumosos. Ainda resta uma esperança é o mais curto que já li dele (250 páginas), mas ainda assim, ele mostrou mais uma vez seu talento em contar uma história envolvente, com personagens que conquistam, numa escrita simples, com bom humor e verdades.

“Mesmo os muito vivos cometem erros; os muito fortes também, especialmente no momento em que acham que estão sendo muito fortes e muitos vivos. Assim o mundo segue seu curso, regulando-se a si mesmo. Se assim não fosse, o que seria de nós?”.

A história de Ainda resta uma esperança ocorre em Viena, pós-guerra, um período em que as pessoas estão sem rumo. Elas perderam suas casas, enterraram familiares, ficaram sem emprego, estão horrorizadas com a guerra, não sabem se terão a próxima refeição.

“Podia-se ignorar tudo que abalava os ânimos, por algum tempo, mas seria impossível manter-se alheio para sempre”.

Jakob Steiner, o primeiro personagem apresentado, é uma dessas pessoas. Ele perdeu a esposa e a filhinha, matou desconhecidos na guerra, e agora que voltou para Viena, não tem mais casa e nem emprego. Sentado debaixo de uma árvore, com um resto de bebida em mãos, ele faz uma análise da sua vida e decide que a melhor saída é a morte.

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Lista que Jakob Steiner faz ao analisar sua vida

Mas cometer suicídio exige um pouco dele, no caso, uma corda, a qual ele não tem.

É aí que aparece a segunda personagem, D. Magdalena, pedreiro de profissão, uma senhora que já viu muito da vida e aguarda pelo retorno do filho. E que também está prestes a ser despejada de onde vive.

Steiner a vê passar pela rua, e pede-lhe uma corda. Mas com um jeito astuto, D. Magdalena convida o bêbado e triste Jakob Steiner a tomar uma sopa quente e ter uma noite tranquila de sono, com a promessa de que no dia seguinte emprestará a tal corda para que ele  possa concluir seu intento.

“D. Magdalena já tinha idade, e tinha visto e ouvido muita coisa na vida, embora nem por isso tivesse ficado mais rica. Conheceu gente muito feliz e gente muito infeliz; gente desesperada e cheia de esperança, valentes e covardes, e também gente que estava decidida a se suicidar. Jakob Steiner não era o primeiro. Sorriu, procurando alguma coisa na gaveta.
Suicidar-se!
Meu Deus, ela podia ser mãe daquele rapaz! Que sabia ele deste mundo tão estranho que conseguia ser ao mesmo tempo tão belo e tão horrível, tão cruel e tão bom, tão infame e tão maravilhoso? O que sabia ele da vida? E da morte? Nada, absolutamente nada”.

A corda chegou às mãos de Steiner, mas a morte não o quis. Assim, surge o terceiro (e talvez o mais querido) personagem da história, o sr. Mamouliam.

Que coincidência o sr. Mamoulian ter saído para roubar ovos no momento em que Jakob Steiner decidira se enforcar! Era uma circunstância muito significativa, como tudo, aliás, que acontece na vida tem um significado profundo, um sentido especial que dá valor à nossa existência. Só podem realmente dizer que vivem as pessoas que não se importam muito com as circunstâncias em si, mas que procuram o sentido profundo e misterioso oculto atrás delas, ontem, hoje, amanhã e sempre.

Mamoulian é um ex-vendedor de tapetes, que perdeu a bela residência (duas bombas caíram em cima), a fortuna, os amigos (que eram falsos) e até um amor. Por fim, a vida tentou tirar ao liberal, alegre e simpático Mamoulian sua fé no próximo. Já isto não foi tão fácil, pois havia três coisas que ninguém lhe conseguia tirar: a coragem, a esperança e o bom humor.

Assim, as vidas de Steiner, Magdalena e Mamoulian se entrelaçam. Surge uma amizade e um objetivo: com os poucos recursos que tem (e muita força nos braços), eles começam a reconstruir a casa de Mamoulian para que possam ter onde morar e enfrentar a vida juntos.

Além desses 3 personagens, tem também Josephine, uma amiga de Mamoulian, que é prostituta e faz de tudo pela filhinha pequena, Ruth. `À primeira vista, Steiner se apaixona por Josephine, sentimento que o faz voltar a ter fé na vida e querer reconstruir a casa o quanto antes, para que possa viver com mãe e filha.

“Passaram pela cerejeira em flor, e Josephine olhou para os galhos.
— A gente deveria viver como a árvore — disse ela.
— Renascer toda primavera, florescer, ter folhas e frutos, e depois viver em paz para si, amadurecer os frutos no verão, ficar cansada no outono e morrer no inverno para despertar novamente na primavera seguinte. Gostaria de levar uma vida simples, como os animais ou as flores; você não, Jakob?”

A partir desses encontros, a história segue contando como reconstruíram a casa, como lutaram contra as dificuldades, como mantiveram a esperança, como alcançaram outras pessoas por meio do amor.

“— A vida é a coisa mais engraçada deste mundo, com exceção do amor, que é mais engraçado ainda”.

“- Vivemos num mundo muito triste. Se não conseguirmos proporcionar um ao outro alguma alegria, não sei o que será de nós!”

“- Muitas pessoas estão constantemente tentando nos privar de nossa própria vida;  temos que defendê-la a toda hora, pois ela está sempre ameaçada. As pessoas que nos amam e aquelas a quem amamos não deveriam constituir uma ameaça; elas deveriam participar da nossa vida, para que um se torne parte da vida do outro”.

Também vemos as reflexões dos personagens sobre a guerra, e o que ela causou no coração do homem.

“— Espero já ter morrido quando vier outra guerra — disse dona Magdalena, pela primeira vez entrando na conversa. — Tenho muito medo.
— Todos têm medo — disse Steiner. — Por isso é que não haverá mais guerra.
— Medo todos têm — concordou Mamoulian — e é exatamente por esse motivo que haverá outra guerra. Sempre haverá guerra enquanto os homens tiverem medo. O medo é, no fundo, a verdadeira causa da guerra. O medo, não o heroísmo!”

— A bomba, não! — exclamou Mamoulian, erguendo-se de um salto.
— 
A bomba em si é inteiramente inofensiva, ela é apenas um objeto! O que é e sempre foi horrível é o homem! Se ele deixar a bomba em paz, ela sozinha nada fará. Ficará quietinha e com o tempo haverá de aceitar missões pacíficas. Não precisamos vigiar a bomba. Precisamos vigiar os homens!

Ainda Resta uma Esperança é um livro muito gostoso de ler. Nos faz sorrir, nos emociona, nos traz bons momentos. E nos ajuda a ver como estamos entrelaçados na vida de outras pessoas, e como podemos, com nosso humor, fé, esperança, respeito e amor, trazer um pouco de luz para a vida delas. No livro, o sr Mamoulian cumpre esse papel, e acho muito bonito quando alguém o define como “ele é a paz de Deus”. ❤

— Na vida — declarou Mamoulian com seriedade —, nesta coisa sublime e ridícula, horrível e gostosa que nós, homens, chamamos de vida, não é a vida em si que interessa, mais a maneira Como a levamos. O que importa é reconhecer que devemos amar as pessoas se quisermos entendê-las. Só o amor tem sentido, todo ódio é insensato. Todos os seres do cosmo são nossos irmãos, precisamos deste mundo como ele precisa de nós; temos de nos reconciliar com ele, com o vento e o mar, com o envelhecimento, afelicidade e a solidão. Com todas as coisas em que acreditamos e diante das quais por vezes nos desesperamos; com o bem e o mal… com anjos e tubarões.

Um livro que vale a leitura. Uma história que vale viver!

Um pouquinho sobre o autor:
Johannes Mario Simmel nasceu em Viena em 1924. Foi Escritor, Jornalista e Roteirista. Faleceu em 2009, aos 84 anos. Foram 73 milhões de cópias de seus livros em todo o mundo. No Brasil, teve muito destaque na década de 80.

É possível encontrar seus livros em Sebos e nas Bibliotecas Públicas. E lá em casa, onde tenho 3 livros dele rsrs

Livros que li do Simmel:

Ainda resta uma esperança (1950)
Deus protege os que amam (1957)
Nem só de caviar vive o homem (1960)
Amor é uma só palavra (1963)
Todos seremos irmãos (1967)
E Jimmy foi ao arco-íris (1970)
É proibido chorar (1977)
Amanhã é outro dia (1978)
Ninguém quer um coração(1979)
Não matem as flores (1983)
A terra ainda é jovem (1984)

Sinopse Ainda Resta uma Esperança

Um mundo em profunda crise econômica: a Alemanha pós-Guerra, derrotada e destruída.

Um universo de vidas sem horizontes: um desempregado que só vê solução no alcoolismo e no suicídio; um milionário que perdeu tudo; uma mulher que se prostitui.

Mas ao mesmo tempo é uma história repleta de sentimentos de solidariedade e de valores morais; observações irônicas sobre a fraqueza das pessoas que não percebem que a solução para os males do mundo e para os seus próprios males está em cada uma delas.

Um dos grandes romances do escritor alemão mais lido no Brasil.

 

Ficha Técnica
Ainda Resta uma Esperança
Autor: J. M. Simmel
Editora: Nova Cultural
Ano: 1986
Pág: 254

 

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IMG_20160131_131329Alessandra Correa,  acabou de chegar aos 30, é apaixonada por sobrinhos, livros, Londres, música, séries e chocolate. Sempre com um livro em mãos, adora falar sobre aqueles que marcaram sua vida. E tem como paixão e dom transformar palavras em histórias e poesias, algumas divulgadas aqui: www.momentoempalavra.blogspot.com
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Os Deuses Vencidos

Hi, people! Hoje vou falar de um livro que para quem gosta de temas bélicos, assim como eu, vai curtir muito. Trata-se de Deuses Vencidos, de Irwin Shaw. Recomendo!

Eu tinha 18 anos quando li Os Deuses Vencidos, de Irwin Shaw. Muitas cenas ficaram na minha cabeça por longos dias (ah, os horrores da guerra. ah, as esperanças dos homens). Mas uma, em especial, ficou gravada por anos: a última página. Posso ver a cena de quando eu finalizei o livro. Estava sentada num fusca amarelo, indo visitar uma tia (que já não posso visitar), quando li essa última página. Lembro do quanto chorei e do quando desejei que o final não fosse aquele. E no meu coração, acabou não sendo. Consegui criar uma “história” que revertesse aquele fim.

Passaram-se 10 anos e numa fase livre (digo: desempregada), voltei à Biblioteca que eu frequentava quando menina. E não é que vi o livro na prateleira do “Pode levar”? Fiquei super feliz e logo estava adentrando novamente nessa história.

Quem tem o costume de reler livro sabe que cada vez é uma leitura diferente. Mas quando essa releitura acontece depois de 10 anos… quanta diferença. Em 10 anos, eu cresci, vivi sonhos, perdi medos, conheci pessoas. E  tudo isso contribuíram para uma nova eu. Assim, as palavras já lidas desse livro foram como novas, tiveram outro impacto sobre mim.

Os Deuses Vencidos conta a história de 3 homens, em lugares distintos, com vidas totalmente diferentes, mas vivendo sob um mesmo drama: a 2ª Guerra Mundial. Ora como testemunhas e ora como protagonistas dessa guerra, suas vidas vão se entrelaçando, até se cruzarem.

Na vida, gosto de pensar assim, que estamos mais ligados do que poderíamos sequer imaginar. Que nossas ações ecoam na vida de outras pessoas, não importa o tempo que leve. Pensar dessa forma me dá um senso de responsabilidade. E me deixa maravilhada, pois vejo como as coisas se orquestram, como fazemos parte de um mesmo quebra-cabeça, todos personagens de um grande (e complexo) roteiro.

A história inicia-se apresentando Christian Diestl,  levando sua vida pacata de instrutor de esqui na Áustria, com expectativas de que a guerra possa reerguer seu povo, trazendo a prosperidade e dignidade de volta. Ele se alista (Eixo), confiando na guerra como única solução e saída. Mas logo vemos sua insatisfação, seu desejo de mudar, de entender o porquê de cada tarefa, numa guerra que já não lhe faz mais sentido. Sua humanidade vai se tornando cada vez mais forte do que sua posição militar.

“Somos uma nação de mendigos. Sete milhões de pessoas sem futuro, à mercê de todos… Um povo não pode viver eternamente humilhado. É capaz de qualquer coisa para recuperar o respeito próprio”.

O próximo personagem que conhecemos é Michael Whitacre, diretor de cena em Nova York. Sua aparência de sucesso já não corresponde mais à realidade, e vemos sua frustração com o fracasso financeiro e profissional. Ele não sente vontade alguma de se alistar, de levantar bandeira, de dar sua vida por uma causa que pouco entende. Mas acaba sendo convocado, e vemos sua jornada nessa guerra, que consiste em sobreviver e encontrar uma razão para isso.

“Captou um relance de si mesmo numa vitrina mal iluminada. Seu reflexo era vago e irreal, mas, como sempre, aborreceu-se com o que viu… Permanecera gordo, encharcado de álcool, preso a um excesso de compromissos, a uma mulher que era praticamente estranha… A menos que quisesse ser arrastado à janela, precisava tomar uma providência”.

E por fim, Noah Ackerman (o meu personagem preferido). Ele é um judeu que mora nos Estados Unidos desde pequeno. Sua vida de menino foi desordenada, abandonado às vezes, deixado com parentes em outras, mas sempre só e perseguido. Ele torna-se um rapaz tímido, e continua sozinho pela vida. Mas sua sorte muda quando faz um bom amigo, e por meio dele, conhece uma garota: paixão à primeira vista! Ele é correspondido e vemos sua vida fluindo feliz e apaixonada, quando então é convocado para combater. Que tristeza vê-lo partir, deixando seu amor para trás! Seus desafios começam em base, onde sofre preconceitos e agressões devido sua nacionalidade. Mas podemos vê-lo proteger seu coração a todo custo, mantendo a bondade e a luz que nele habitam.

“Era difícil crer que houvera tempo em que não conheces Roger, em que vagueava pelas ruas da cidade sem dirigir a palavra a ninguém, uma época em que não tivera nenhum amigo, nem homem, nem mulher, que olhasse para ele com afeto, onde rua alguma era a sua, e hora nenhuma era mais atraente do que outra”.

As vidas de Michael e Noah se cruzam primeiro, pois acabam fazendo parte do no mesmo pelotão (Aliados), e eles tornam-se bons amigos. Uma amizade que protege e conforta seus corações aflitos.

“- É preciso ter amigos – afirmou Noah com violência. – Não se pode permitir que nos mandem para qualquer lugar onde não haja ninguém para nos proteger…
– Sim – concordou Michael, brandamente, estendendo a mão para tocar o braço magro do rapaz. – Irei com você.
Mas não disse que iria por sentir que era ele quem precisava de amigos”.

Durante a jornada dos 3 personagens, vamos presenciando os horrores da guerra, e os lampejos de esperança, comum a todos. Ao terminar a leitura desse livro, apenas pude concluir que não há americano, judeu ou alemão. Há apenas (ou sobre tudo) seres humanos. Cada um com seus dramas, sonhos, desejos, medos e erros. Numa guerra todos sofrem, todo são perdedores e é difícil reconhecer os tais heróis e vilões. Todos eles apenas querem voltar para suas casas, ficar junto de suas famílias e viver os seus sonhos. E não é o que também queremos?

Sinopse
O horror da guerra não tem nacionalidade. Nova York ou Paris, Londres ou Berlim… em todas as cidades o desespero e a angústia são os mesmos.OsDeusesVencidos (2)
Christian Diestl, Michael Whitacre, Noah Ackerman, três destinos confundidos no turbilhão dos campos de batalha da Segunda Guerra Mundial. Três vidas paralelas, com suas esperanças, seus amores, seus fracassos. Três testemunhas de uma guerra cruel, na qual se revelam todos os sentimentos dos homens: o heroísmo, a miséria, a piedade, a mesquinhez e a grandeza. Eles convivem com a morte e com as ilusões que não deixam morrer; eles vivem como se cada instante fosse o último.
Um romance realista, que descreve a brutalidade da guerra até nos seus detalhes mais violentos. Um verdadeiro libelo contra os horrores do maior conflito bélico do século XX, escrito por Irwin Shaw.

Ficha Técnica
Os Deuses Vencidos
Autor: Irwin Shaw
Ano: 1987
Editora: Nova Cultura
Pág: 546

>>> Esse livro poderá ser garimpado em Sebos, ou em Bibliotecas Públicas<<<

>>> O livro também virou filme (1958) e se tornou um clássico de grande prestígio. Tem a direção de Edward Dmytryk, e no elenco, estrelas como Dean Martin, Marlon Brando e Montgomery Clift. Ah, e um final diferente do livro<<<

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IMG_20160131_131329Alessandra Correa,  chegando aos 30, é apaixonada por sobrinhos, livros, Londres, música, séries e chocolate. Sempre com um livro em mãos, adora falar sobre aqueles que marcaram sua vida. E tem como paixão e dom transformar palavras em histórias e poesias, algumas divulgadas aqui: www.momentoempalavra.blogspot.com