Arquivos

A Casa do Céu, de Amanda Lindhout e Sara Corbett

Olá, Pessoal!

Aproveitando aí o feriado? Por aqui sim, inclusive para fazer um post hehe

Há alguns dias terminei a leitura do livro “A casa do céu”, de Amanda Lindhout e Sara Corbett. Esse livro chegou em minhas mãos gentilmente por uma amiga que está se desapegando de seus livros e achou que eu gostaria desse. E ela não poderia estar mais certa!

O livro trata de 3 temas que curto bastante: viagens; diferentes culturas; superação. Ele é autobiográfico, escrito em 1ª pessoa, o que também curto.

Neste livro, conhecemos a história de Amanda Lindhout. Mas antes de chegarmos ao fato principal do livro, vamos voltar um pouquinho para trás, ok?

Viagens e Diferentes Culturas
Amanda nasceu numa cidadezinha do Canadá. Quando criança, sua mãe se casou novamente. E logo ela se viu crescendo numa família conturbada, vendo sua mãe sofrendo violência doméstica. Seu escape era folhear revistas da National Geographic e sonhar em estar nesses lindos lugares.

“Eu não conseguia entender aquilo. Nunca conseguiria. Simplesmente tentava ignorar a situação. Quando as luzes estavam apagadas e todos os corpos estavam deitados, eu desaparecia, voava para longe. Minha mente saía de debaixo dos lençóis, corria pelas escadas e ia para longe, para os desertos de seda e águas marinhas espumantes […]. Tinha certeza de que o meu mundo ficava em outro lugar.”

Quando chegou aos 19 anos, começou a trabalhar como garçonete e ganhar muita grana em gorjetas. E então, ela não teve dúvidas! Começou a viajar pelo mundo, como mochileira. Uau!!! Na primeira parte do livro, para quem curte viajar e conhecer diferentes culturas, não tem erro. Ficamos maravilhados e com muita vontade de colocar o pé na estrada.

Em uma dessas viagens, quando está na Etiópia, Amanda conhece Nigel Brennan, australiano, que na época morava em Londres, mas também passava muito tempo viajando, trabalhando como fotógrafo. Eles se apaixonam, compartilham juntos boas viagens e alguns meses de namoro.

Com o passar dos anos, Amanda começa a perceber que “nem só de viagem vive o homem” rsrs. Ela sabe que precisa de uma profissão, saber fazer alguma coisa. Vão surgindo então algumas oportunidades para escrever artigos e até para trabalhar como jornalista num canal de televisão no Iraque. É engraçado quando olhamos para as coisas que vão formando nosso caminho, nos preparando para o hoje.

Foi assim com Amanda. Ela, quando criança, nunca poderia imaginar que seu desejo de viajar ia ser realizado, mas também a levaria para lugares que nunca desejou estar.

“É óbvio que você nunca vai conseguir olhar para o seu próprio futuro com clareza, ou para o futuro de qualquer outra pessoa. É impossível saber o que vai acontecer, até que a coisa aconteça. Ou talvez perceba naquela fração de segundo que antecede o fato, quando consegue vislumbrar o seu próprio destino.”

Superação
Em 2008, Amanda e Nigel retomam o contato, como amigos. Amanda se preparava para um job freelancer na Somália, e convida Nigel para ir junto, como fotógrafo. E assim, eles chegam a Mogadíscio, capital da Somália.

A Somália era (ainda é) um dos países mais perigosos do mundo, instável e que vivencia guerras civis constantes. Eles sabiam dos riscos, mas não podiam imaginar que uma viagem que era para durar apenas alguns dias fosse virar suas vidas de cabeça para baixo.

No 3º dia que estavam na cidade, junto com o guia e um motorista, eles são sequestrados e  mantidos em cativeiro por 15 meses.

“Éramos parte de uma transação desesperada, multinacional e importante. Éramos parte de uma guerra santa. Éramos parte de um problema maior. Fiz promessas a mim mesma sobre o que faria se conseguisse sair daquela situação. […] Comecei a ter certeza de que, escondidos no interior da Somália, em meio a este local estranho e maltratado, nós nunca seríamos encontrados.

Quem os mantinha em cativeiro eram islâmicos, e apesar do sequestro não ter motivação religiosa, logo Amanda e Nigel perceberam que deveriam acatar suas tradições e leis, se quisessem sobreviver. Se converter ao islamismo foi uma estratégia que adotaram, e que trouxe alguns benefícios iniciais, mas não permanentes. Nessa questão também tem o fato de como a mulher é vista e tratada pelo islã, complicando ainda mais o lado de Amanda.

O grupo que os sequestrou era composto principalmente por meninos. Meninos que cresceram em meio à violência, à fome. Muitas vezes Amanda entrava em conflito sobre o que pensar em relação a eles. Às vezes o sentimento era de raiva, mas em outros, de compaixão.

A motivação principal do sequestro foi dinheiro. O grupo que os sequestrou pediu 3 milhões de dólares pela vida dos dois. Foram muitos meses de negociação, e os governos (tanto da Austrália quanto do Canadá), apesar de prestarem apoio às famílias, não entraram com o dinheiro. Foi necessário que a família de ambos vendessem bens, fizessem empréstimos e amigos ajudassem. Depois desses 15 meses, conseguiram pagar o resgate, chegando num acordo de 600 mil dólares.

Durante a leitura, sobre esse tempo de cativeiro, foram muitos os meus momentos de lágrima, angustia e revolta. Eu sofri com Amanda em seus momentos de medo, dor, desespero, fome. Fiquei pensando na minha força, se eu conseguiria sobreviver a uma situação semelhante, se eu manteria a esperança como ela manteve.

A presença e amizade de Nigel fez também toda a diferença para que Amanda permanecesse firme. Apesar dela enaltecer isso, há alguns fatos que ela conta que me deixaram “chateadas” com Nigel (como quando ele a deixou levar toda a culpa por uma tentativa de fuga). Mas descobri que ele também escreveu um livro, e quero muito ler, conhecer a versão dele.

Quando terminei de ler o livro fiz algumas pesquisas, e achei o episódio “Pesadelo na Somália” da Série Férias na Prisão, da FOX. O episódio é sobre a história deles, contada por Nigel. Assisti e apesar de ser apenas uma pincelada do que foram esses 15 meses já deu para ter uma noção de tudo que passaram.

Aqui também tem uma notícia de quando foram libertados.

Sobre o nome do livro
Durante o tempo de cativeiro, Amanda e Nigel foram mantidos em diferentes casas. E referiam-se a elas como A Casa Escura, A Casa Elétrica etc.

E havia a Casa no Céu. Essa é para onde Amanda ia, em sua mente e coração, nos momentos terríveis.

“Dentro da casa no céu, todas as pessoas que eu amava se sentavam para uma bela refeição, digna de um feriado. Eu estava segura e protegida. Estava onde todas as vozes que normalmente rasgavam meus pensamentos expressando medo e desejando que a morte chegasse ficassem em silêncio, até restar apenas uma. Era uma voz calma e forte, que, para mim, se parecia divina. Ela dizia: Está vendo? Você está bem, Amanda. É apenas o seu corpo que está sofrendo, e você não é  o seu corpo. O restante de você está bem.”

 

Bem, é um livro que me prendeu até o final. Pela sua boa escrita, cheia de detalhes, informações e sentimento. Mas também por provar mais uma vez que “enquanto houver vida, há esperança!”

Bom restinho de feriado a todos!

Bjs,
Alê e Maya.

img_20161102_155439821

 

Ainda Resta uma Esperança

Olá, Pessoal! Hoje o post é sobre um dos meus livros preferidos do Johannes Mario Simmel, um autor austríaco que fez muito sucesso no Brasil na década de 80 e na minha listinha de livros lidos. 

Escrito em 1950, Ainda Resta uma Esperança, de J.M. Simmel, é um livro belo. Além de ter transformado personagens em “amigos”, trouxe-me boas reflexões e risadas. Já o li 3 vezes, sendo a última há alguns dias atrás (ah, o cheiro de livro velho!).

Conheci Simmel quando adolescente, fuçando a Biblioteca Pública que frequentava. O primeiro livro que li dele foi “Deus protege os que se amam“, em janeiro de 2004. Gostei tanto da leitura que só naquele ano li mais 4 dele. Todos pra lá de 400 páginas!

Como se vê, seus romances são bem volumosos. Ainda resta uma esperança é o mais curto que já li dele (250 páginas), mas ainda assim, ele mostrou mais uma vez seu talento em contar uma história envolvente, com personagens que conquistam, numa escrita simples, com bom humor e verdades.

“Mesmo os muito vivos cometem erros; os muito fortes também, especialmente no momento em que acham que estão sendo muito fortes e muitos vivos. Assim o mundo segue seu curso, regulando-se a si mesmo. Se assim não fosse, o que seria de nós?”.

A história de Ainda resta uma esperança ocorre em Viena, pós-guerra, um período em que as pessoas estão sem rumo. Elas perderam suas casas, enterraram familiares, ficaram sem emprego, estão horrorizadas com a guerra, não sabem se terão a próxima refeição.

“Podia-se ignorar tudo que abalava os ânimos, por algum tempo, mas seria impossível manter-se alheio para sempre”.

Jakob Steiner, o primeiro personagem apresentado, é uma dessas pessoas. Ele perdeu a esposa e a filhinha, matou desconhecidos na guerra, e agora que voltou para Viena, não tem mais casa e nem emprego. Sentado debaixo de uma árvore, com um resto de bebida em mãos, ele faz uma análise da sua vida e decide que a melhor saída é a morte.

Imagem1

Lista que Jakob Steiner faz ao analisar sua vida

Mas cometer suicídio exige um pouco dele, no caso, uma corda, a qual ele não tem.

É aí que aparece a segunda personagem, D. Magdalena, pedreiro de profissão, uma senhora que já viu muito da vida e aguarda pelo retorno do filho. E que também está prestes a ser despejada de onde vive.

Steiner a vê passar pela rua, e pede-lhe uma corda. Mas com um jeito astuto, D. Magdalena convida o bêbado e triste Jakob Steiner a tomar uma sopa quente e ter uma noite tranquila de sono, com a promessa de que no dia seguinte emprestará a tal corda para que ele  possa concluir seu intento.

“D. Magdalena já tinha idade, e tinha visto e ouvido muita coisa na vida, embora nem por isso tivesse ficado mais rica. Conheceu gente muito feliz e gente muito infeliz; gente desesperada e cheia de esperança, valentes e covardes, e também gente que estava decidida a se suicidar. Jakob Steiner não era o primeiro. Sorriu, procurando alguma coisa na gaveta.
Suicidar-se!
Meu Deus, ela podia ser mãe daquele rapaz! Que sabia ele deste mundo tão estranho que conseguia ser ao mesmo tempo tão belo e tão horrível, tão cruel e tão bom, tão infame e tão maravilhoso? O que sabia ele da vida? E da morte? Nada, absolutamente nada”.

A corda chegou às mãos de Steiner, mas a morte não o quis. Assim, surge o terceiro (e talvez o mais querido) personagem da história, o sr. Mamouliam.

Que coincidência o sr. Mamoulian ter saído para roubar ovos no momento em que Jakob Steiner decidira se enforcar! Era uma circunstância muito significativa, como tudo, aliás, que acontece na vida tem um significado profundo, um sentido especial que dá valor à nossa existência. Só podem realmente dizer que vivem as pessoas que não se importam muito com as circunstâncias em si, mas que procuram o sentido profundo e misterioso oculto atrás delas, ontem, hoje, amanhã e sempre.

Mamoulian é um ex-vendedor de tapetes, que perdeu a bela residência (duas bombas caíram em cima), a fortuna, os amigos (que eram falsos) e até um amor. Por fim, a vida tentou tirar ao liberal, alegre e simpático Mamoulian sua fé no próximo. Já isto não foi tão fácil, pois havia três coisas que ninguém lhe conseguia tirar: a coragem, a esperança e o bom humor.

Assim, as vidas de Steiner, Magdalena e Mamoulian se entrelaçam. Surge uma amizade e um objetivo: com os poucos recursos que tem (e muita força nos braços), eles começam a reconstruir a casa de Mamoulian para que possam ter onde morar e enfrentar a vida juntos.

Além desses 3 personagens, tem também Josephine, uma amiga de Mamoulian, que é prostituta e faz de tudo pela filhinha pequena, Ruth. `À primeira vista, Steiner se apaixona por Josephine, sentimento que o faz voltar a ter fé na vida e querer reconstruir a casa o quanto antes, para que possa viver com mãe e filha.

“Passaram pela cerejeira em flor, e Josephine olhou para os galhos.
— A gente deveria viver como a árvore — disse ela.
— Renascer toda primavera, florescer, ter folhas e frutos, e depois viver em paz para si, amadurecer os frutos no verão, ficar cansada no outono e morrer no inverno para despertar novamente na primavera seguinte. Gostaria de levar uma vida simples, como os animais ou as flores; você não, Jakob?”

A partir desses encontros, a história segue contando como reconstruíram a casa, como lutaram contra as dificuldades, como mantiveram a esperança, como alcançaram outras pessoas por meio do amor.

“— A vida é a coisa mais engraçada deste mundo, com exceção do amor, que é mais engraçado ainda”.

“- Vivemos num mundo muito triste. Se não conseguirmos proporcionar um ao outro alguma alegria, não sei o que será de nós!”

“- Muitas pessoas estão constantemente tentando nos privar de nossa própria vida;  temos que defendê-la a toda hora, pois ela está sempre ameaçada. As pessoas que nos amam e aquelas a quem amamos não deveriam constituir uma ameaça; elas deveriam participar da nossa vida, para que um se torne parte da vida do outro”.

Também vemos as reflexões dos personagens sobre a guerra, e o que ela causou no coração do homem.

“— Espero já ter morrido quando vier outra guerra — disse dona Magdalena, pela primeira vez entrando na conversa. — Tenho muito medo.
— Todos têm medo — disse Steiner. — Por isso é que não haverá mais guerra.
— Medo todos têm — concordou Mamoulian — e é exatamente por esse motivo que haverá outra guerra. Sempre haverá guerra enquanto os homens tiverem medo. O medo é, no fundo, a verdadeira causa da guerra. O medo, não o heroísmo!”

— A bomba, não! — exclamou Mamoulian, erguendo-se de um salto.
— 
A bomba em si é inteiramente inofensiva, ela é apenas um objeto! O que é e sempre foi horrível é o homem! Se ele deixar a bomba em paz, ela sozinha nada fará. Ficará quietinha e com o tempo haverá de aceitar missões pacíficas. Não precisamos vigiar a bomba. Precisamos vigiar os homens!

Ainda Resta uma Esperança é um livro muito gostoso de ler. Nos faz sorrir, nos emociona, nos traz bons momentos. E nos ajuda a ver como estamos entrelaçados na vida de outras pessoas, e como podemos, com nosso humor, fé, esperança, respeito e amor, trazer um pouco de luz para a vida delas. No livro, o sr Mamoulian cumpre esse papel, e acho muito bonito quando alguém o define como “ele é a paz de Deus”. ❤

— Na vida — declarou Mamoulian com seriedade —, nesta coisa sublime e ridícula, horrível e gostosa que nós, homens, chamamos de vida, não é a vida em si que interessa, mais a maneira Como a levamos. O que importa é reconhecer que devemos amar as pessoas se quisermos entendê-las. Só o amor tem sentido, todo ódio é insensato. Todos os seres do cosmo são nossos irmãos, precisamos deste mundo como ele precisa de nós; temos de nos reconciliar com ele, com o vento e o mar, com o envelhecimento, afelicidade e a solidão. Com todas as coisas em que acreditamos e diante das quais por vezes nos desesperamos; com o bem e o mal… com anjos e tubarões.

Um livro que vale a leitura. Uma história que vale viver!

Um pouquinho sobre o autor:
Johannes Mario Simmel nasceu em Viena em 1924. Foi Escritor, Jornalista e Roteirista. Faleceu em 2009, aos 84 anos. Foram 73 milhões de cópias de seus livros em todo o mundo. No Brasil, teve muito destaque na década de 80.

É possível encontrar seus livros em Sebos e nas Bibliotecas Públicas. E lá em casa, onde tenho 3 livros dele rsrs

Livros que li do Simmel:

Ainda resta uma esperança (1950)
Deus protege os que amam (1957)
Nem só de caviar vive o homem (1960)
Amor é uma só palavra (1963)
Todos seremos irmãos (1967)
E Jimmy foi ao arco-íris (1970)
É proibido chorar (1977)
Amanhã é outro dia (1978)
Ninguém quer um coração(1979)
Não matem as flores (1983)
A terra ainda é jovem (1984)

Sinopse Ainda Resta uma Esperança

Um mundo em profunda crise econômica: a Alemanha pós-Guerra, derrotada e destruída.

Um universo de vidas sem horizontes: um desempregado que só vê solução no alcoolismo e no suicídio; um milionário que perdeu tudo; uma mulher que se prostitui.

Mas ao mesmo tempo é uma história repleta de sentimentos de solidariedade e de valores morais; observações irônicas sobre a fraqueza das pessoas que não percebem que a solução para os males do mundo e para os seus próprios males está em cada uma delas.

Um dos grandes romances do escritor alemão mais lido no Brasil.

 

Ficha Técnica
Ainda Resta uma Esperança
Autor: J. M. Simmel
Editora: Nova Cultural
Ano: 1986
Pág: 254

 

—————————————————–

IMG_20160131_131329Alessandra Correa,  acabou de chegar aos 30, é apaixonada por sobrinhos, livros, Londres, música, séries e chocolate. Sempre com um livro em mãos, adora falar sobre aqueles que marcaram sua vida. E tem como paixão e dom transformar palavras em histórias e poesias, algumas divulgadas aqui: www.momentoempalavra.blogspot.com

Os Deuses Vencidos

Hi, people! Hoje vou falar de um livro que para quem gosta de temas bélicos, assim como eu, vai curtir muito. Trata-se de Deuses Vencidos, de Irwin Shaw. Recomendo!

Eu tinha 18 anos quando li Os Deuses Vencidos, de Irwin Shaw. Muitas cenas ficaram na minha cabeça por longos dias (ah, os horrores da guerra. ah, as esperanças dos homens). Mas uma, em especial, ficou gravada por anos: a última página. Posso ver a cena de quando eu finalizei o livro. Estava sentada num fusca amarelo, indo visitar uma tia (que já não posso visitar), quando li essa última página. Lembro do quanto chorei e do quando desejei que o final não fosse aquele. E no meu coração, acabou não sendo. Consegui criar uma “história” que revertesse aquele fim.

Passaram-se 10 anos e numa fase livre (digo: desempregada), voltei à Biblioteca que eu frequentava quando menina. E não é que vi o livro na prateleira do “Pode levar”? Fiquei super feliz e logo estava adentrando novamente nessa história.

Quem tem o costume de reler livro sabe que cada vez é uma leitura diferente. Mas quando essa releitura acontece depois de 10 anos… quanta diferença. Em 10 anos, eu cresci, vivi sonhos, perdi medos, conheci pessoas. E  tudo isso contribuíram para uma nova eu. Assim, as palavras já lidas desse livro foram como novas, tiveram outro impacto sobre mim.

Os Deuses Vencidos conta a história de 3 homens, em lugares distintos, com vidas totalmente diferentes, mas vivendo sob um mesmo drama: a 2ª Guerra Mundial. Ora como testemunhas e ora como protagonistas dessa guerra, suas vidas vão se entrelaçando, até se cruzarem.

Na vida, gosto de pensar assim, que estamos mais ligados do que poderíamos sequer imaginar. Que nossas ações ecoam na vida de outras pessoas, não importa o tempo que leve. Pensar dessa forma me dá um senso de responsabilidade. E me deixa maravilhada, pois vejo como as coisas se orquestram, como fazemos parte de um mesmo quebra-cabeça, todos personagens de um grande (e complexo) roteiro.

A história inicia-se apresentando Christian Diestl,  levando sua vida pacata de instrutor de esqui na Áustria, com expectativas de que a guerra possa reerguer seu povo, trazendo a prosperidade e dignidade de volta. Ele se alista (Eixo), confiando na guerra como única solução e saída. Mas logo vemos sua insatisfação, seu desejo de mudar, de entender o porquê de cada tarefa, numa guerra que já não lhe faz mais sentido. Sua humanidade vai se tornando cada vez mais forte do que sua posição militar.

“Somos uma nação de mendigos. Sete milhões de pessoas sem futuro, à mercê de todos… Um povo não pode viver eternamente humilhado. É capaz de qualquer coisa para recuperar o respeito próprio”.

O próximo personagem que conhecemos é Michael Whitacre, diretor de cena em Nova York. Sua aparência de sucesso já não corresponde mais à realidade, e vemos sua frustração com o fracasso financeiro e profissional. Ele não sente vontade alguma de se alistar, de levantar bandeira, de dar sua vida por uma causa que pouco entende. Mas acaba sendo convocado, e vemos sua jornada nessa guerra, que consiste em sobreviver e encontrar uma razão para isso.

“Captou um relance de si mesmo numa vitrina mal iluminada. Seu reflexo era vago e irreal, mas, como sempre, aborreceu-se com o que viu… Permanecera gordo, encharcado de álcool, preso a um excesso de compromissos, a uma mulher que era praticamente estranha… A menos que quisesse ser arrastado à janela, precisava tomar uma providência”.

E por fim, Noah Ackerman (o meu personagem preferido). Ele é um judeu que mora nos Estados Unidos desde pequeno. Sua vida de menino foi desordenada, abandonado às vezes, deixado com parentes em outras, mas sempre só e perseguido. Ele torna-se um rapaz tímido, e continua sozinho pela vida. Mas sua sorte muda quando faz um bom amigo, e por meio dele, conhece uma garota: paixão à primeira vista! Ele é correspondido e vemos sua vida fluindo feliz e apaixonada, quando então é convocado para combater. Que tristeza vê-lo partir, deixando seu amor para trás! Seus desafios começam em base, onde sofre preconceitos e agressões devido sua nacionalidade. Mas podemos vê-lo proteger seu coração a todo custo, mantendo a bondade e a luz que nele habitam.

“Era difícil crer que houvera tempo em que não conheces Roger, em que vagueava pelas ruas da cidade sem dirigir a palavra a ninguém, uma época em que não tivera nenhum amigo, nem homem, nem mulher, que olhasse para ele com afeto, onde rua alguma era a sua, e hora nenhuma era mais atraente do que outra”.

As vidas de Michael e Noah se cruzam primeiro, pois acabam fazendo parte do no mesmo pelotão (Aliados), e eles tornam-se bons amigos. Uma amizade que protege e conforta seus corações aflitos.

“- É preciso ter amigos – afirmou Noah com violência. – Não se pode permitir que nos mandem para qualquer lugar onde não haja ninguém para nos proteger…
– Sim – concordou Michael, brandamente, estendendo a mão para tocar o braço magro do rapaz. – Irei com você.
Mas não disse que iria por sentir que era ele quem precisava de amigos”.

Durante a jornada dos 3 personagens, vamos presenciando os horrores da guerra, e os lampejos de esperança, comum a todos. Ao terminar a leitura desse livro, apenas pude concluir que não há americano, judeu ou alemão. Há apenas (ou sobre tudo) seres humanos. Cada um com seus dramas, sonhos, desejos, medos e erros. Numa guerra todos sofrem, todo são perdedores e é difícil reconhecer os tais heróis e vilões. Todos eles apenas querem voltar para suas casas, ficar junto de suas famílias e viver os seus sonhos. E não é o que também queremos?

Sinopse
O horror da guerra não tem nacionalidade. Nova York ou Paris, Londres ou Berlim… em todas as cidades o desespero e a angústia são os mesmos.OsDeusesVencidos (2)
Christian Diestl, Michael Whitacre, Noah Ackerman, três destinos confundidos no turbilhão dos campos de batalha da Segunda Guerra Mundial. Três vidas paralelas, com suas esperanças, seus amores, seus fracassos. Três testemunhas de uma guerra cruel, na qual se revelam todos os sentimentos dos homens: o heroísmo, a miséria, a piedade, a mesquinhez e a grandeza. Eles convivem com a morte e com as ilusões que não deixam morrer; eles vivem como se cada instante fosse o último.
Um romance realista, que descreve a brutalidade da guerra até nos seus detalhes mais violentos. Um verdadeiro libelo contra os horrores do maior conflito bélico do século XX, escrito por Irwin Shaw.

Ficha Técnica
Os Deuses Vencidos
Autor: Irwin Shaw
Ano: 1987
Editora: Nova Cultura
Pág: 546

>>> Esse livro poderá ser garimpado em Sebos, ou em Bibliotecas Públicas<<<

>>> O livro também virou filme (1958) e se tornou um clássico de grande prestígio. Tem a direção de Edward Dmytryk, e no elenco, estrelas como Dean Martin, Marlon Brando e Montgomery Clift. Ah, e um final diferente do livro<<<

—————————————————–

IMG_20160131_131329Alessandra Correa,  chegando aos 30, é apaixonada por sobrinhos, livros, Londres, música, séries e chocolate. Sempre com um livro em mãos, adora falar sobre aqueles que marcaram sua vida. E tem como paixão e dom transformar palavras em histórias e poesias, algumas divulgadas aqui: www.momentoempalavra.blogspot.com