Asas Partidas, de Kahlil Gibran

Romance e Poesia juntos, e tendo como autor Kahlil Gibran?
Claro que vou falar de um livro especial! Espero que gostem!

Asas Partidas, de Kahlil Gibran, é belo! Bem, sou suspeita nessa análise. Desde que fui apresentada a Kahlil por meio do meu irmão Alan, virei fã. Gosto de sua poesia, da forma que ele mostra vivenciar os sentimentos, de como consegue descrever coisas simples com tamanha beleza. Então, tudo o que pude ler dele, li com sorriso no rosto.

E com Asas Partidas não foi diferente. Contada em 1ª pessoa e tendo como nome Gibran o protagonista, a história nos leva a crer que é autobiográfica. Mas não encontrei informações que confirmassem essa teoria. Bem, preferi acreditar que sim, até porque Khalil Gibran retornou ao Líbano quando jovem para estudar a língua e a literatura árabes. Quem sabe tenha sido nessa ocasião que vivenciou o amor pela primeira vez?

A partir daqui, para evitarmos confusões, quando eu citar Gibran refiro-me ao personagem. E se falar do autor, usarei Kahlil. Ok?! Vamos lá!

Asas Partidas conta a breve, profunda, bela e triste história do primeiro amor, vividas pelos jovens Gibran e Selma.

“Tinha eu 18 anos, quando o amor abriu-me os olhos com seus raios mágicos e por primeira vez tocou com seus dedos quentes meu espírito, através de Selma Karamy, a primeira mulher a despertar minha alma com sua beleza e a levar-me ao jardim da grande ternura, em que os dias transcorrem como sonhos, e as noites, como núpcias”.

A história inicia-se na primavera de Beirute, Líbano, em um dos cenários mais lindos que já vivi por meio dos livrosKahlil a descreve de forma tão bela que nos faz querer estar ali.

“Na primavera daquele ano maravilhoso, eu estava em Beirute. Os jardins, repletos de flores típicas daqueles dias de Nisan, e a terra coberta de grama verde eram parte do milagre da terra desabrochada para os céus. As laranjeiras e macieiras, como bailarinas ou noivas enviadas pela natureza para inspirar os poetas e agitar a imaginação, vestiam-se de brancos adornos de flores perfumadas”.

De fato, é uma das marcas de Kahlil: ele sempre se prostrou em admiração e adoração à beleza da natureza. Por que será que perdemos essa visão para as coisas lindas ao nosso alcance? 

E assim, numa tarde de primavera, Gibran é apresentado a Farris Efandi, um senhor viúvo, rico, muito bondoso e tem como alegria a única filha, Selma. Farris foi amigo íntimo de pai de Gibran, o qual não vê há mais de 20 anos. Então, quando ele vê Gibran, com muito carinho o convida a visitá-lo, para que na companhia de Gibran possa desfrutar da amizade antiga que teve com o pai do jovem.

Gibran não poderia imaginar que em aceitar tão convite, estaria adentrando ao mundo desconhecido e encantador do amor.  Esse capítulo, em que conhece Selma, é chamado de “Entrada para o Templo”. Eu não poderia encontrar melhor descrição!

“Nesse instante, uma linda jovem, vestindo um elegante vestido de seda branca, surgiu por trás das cortinas de veludo da porta e caminhou em minha direção (…) Esta é a minha filha Selma, apresentou-me a ela. Quando a toquei, senti sua mão como um lírio branco, e uma estranha melancolia dominou meu coração”.

De forma muito suave, nasce a amizade entre Gibran e Selma, e dela, o amor.

“Agora sei que existe algo mais alto que o céu e mais profundo que o oceano, e mais estranho que a vida e a morte e o tempo. Sei agora o que antes não sabia”.

Mas na mesma noite em que o casal declara seus sentimentos um ao outro, são surpreendidos com uma notícia trágica.

O bispo da cidade, que usa o título para “esconder sua perversão à sombra do Evangelho”, pede a mão de Selma para casá-la com o sobrinho Mansour Bey Galib, uma “monstruosidade de ódio e corrupção”. Não em razão por querer ver o sobrinho casado com uma jovem bela e nobre de espírito, mas por querer que ele se torne herdeiro da fortuna de Farris.

Nessa parte da história Kahlil deixa bem claro como a comunidade segue os líderes cegamente, sem questionamentos. E em qualquer lugar do mundo, um líder sabe que pode exercer sua influência tanto para bem como para o mal. O Bispo exerce para o mal, e o bondoso Farris, apesar de ir contra sua vontade e alma, não consegue ver uma saída. O destino de Selma está selado.

Dirigiu então um olhar indagador para o pai, buscando descobrir seu segredo. ‘Já entendi’ – disse ela em seguida, cortante -, ‘já entendi tudo. O bispo pediu-lhe minha mão e já tem preparada uma gaiola para aprisionar este pássaro de asas partidas’.

É um momento muito triste, e pude imaginar Gibran indo embora naquela noite, a passos lentos, coração apertado:

“Fui embora como Adão abandonando o Paraíso, mas a Eva de meu coração não estava comigo, para fazer do mundo inteiro um novo Éden. Nasci novamente naquela noite, mas também vi o rosto da morte pela primeira vez. Tudo era como o sol que, com seu calor, cria a vida nas plantações ou a elimina”.

Em poucos dias, Selma se casa com o sobrinho do bispo, deixando o jovem Gibran ferido.

“Ah, meu Deus, tenha misericórdia de mim e cicatrize minhas asas partidas”.

Depois de um longo tempo, eles se reencontram e todo o sonho do amor retorna aos seus corações. Eles passam a se encontrar às escondidas, num templo abandonado. Nesses encontros, nada acontece fisicamente entre os dois. É mais um encontro de mente e almas. Eles conversam sobre as aflições, sobre os sonhos, e sobre a realidade em que vivem.

Como em outros romances de Kalhil, há grande denúncia quanto à cultura árabe, no que se refere ao tratamento da mulher. É por meio da vida de Selma que ele traz à tona o sofrimento de tantas mulheres que não tem escolha, nem voz. Mulheres que perdem o direito inclusive do próprio corpo.

Mas tais encontros chegariam ao fim. O bispo começa a desconfiar de Selma e a colocar vigias para acompanhar seus passos. Ela sabe que já está condenada, mas num ato de renúncia, mesmo que parta ainda mais seu coração, decide não mais encontrar-se com Gibran, por medo de que algo lhe aconteça.

“Meu amado, meu espírito não pede separação, pois você é uma parte de mim. Meus olhos nunca se cansam de olhá-lo, pois você é a sua luz; mas, se o destino determinou que eu deveria percorrer o caminho íngreme da vida presa à correntes, como poderia contentar-me em deixar seu destino igual ao meu?”.

Em assim, num último encontro, cheio de dor e de exaltação do amor, eles se despedem. O jovem Gibran voltará a amar e viver o amor (se for mesmo biográfica, sabemos que terá amado muito por meio de Cartas de Amor do Profeta). Mas Selma conseguirá ter apenas um lampejo do amor. Ah, Selma. Um pássaro que foi preso, e só voltou a ser livre quando, por fim, o corpo libertou sua alma.

É um livro curto, justamente para contar uma história de amor que foi muito curta. Não que o amor tenha durado pouco (pelo contrário), mas porque o desfecho da história foi mesmo muito rápido. Mas nas poucas páginas desse livro encontrará muita poesia, beleza e esperança.

“O amor é a única liberdade do mundo, pois eleva o espírito de tal maneira que as leis da humanidade e os fenômenos da natureza não podem mudar seu curso”.

“O amor purificado pelas lágrimas ficará puro e belo para sempre”.

Com o coração apertado, em favor dos muitos corações partidos, termino esse post. Bjs

Asas-Partidas

Sinopse

Como um Romeu e Julieta oriental, este romance de Kahlil Gibran expressa com maestria e sublime beleza do primeiro amor e a infinita dor da renúncia. De evidente caráter autobiográfico, nele o protagonista Gibran tem seu jovem espírito despertado pela primeira vez para a ternura e o afeto, em conflito com a dúvida e o sofrimento da perda.

Publicada em 1912, esta obra pertence à primeira fase literária de Kahlil Gibran, escrita em árabe. E apesar de seu caráter de denúncia de opressão a que estava submetido o povo libanês, e particularmente da terrível situação de submissão das mulheres orientais, o texto já apresenta o estilo característico do autor, que nos envolve e eleva em sua atmosfera de lirismo e espiritualidade.

Ficha Técnica
Asas Partidas
Autor: Kahlil Gibran
Editora: Claridade
Ano: 2005
Pág: 112
ISBN: 8588386291

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3 pensamentos sobre “Asas Partidas, de Kahlil Gibran

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